Abayomi
A primeira vez que vi Sara, seu jeito exótico e extravagante, convenceu-me que se tratava de uma louca, por isso procurei me manter afastado, quase escondido, apenas observando.
Estranhei muito seu rosto negro, ébano como ela toda, ressaltado pelo sorriso largo e os lábios pintados de verde abacate.
Também estranhei suas vestes, a cabeça coberta com um chapéu esquisito, mistura de touca com panamá coberto com miçangas coloridas e pequenas bonecas penduradas, sua roupa, uma espécie de bata sobre calças pantalonas, as duas de tecido negro recoberto com as mesmas miçangas coloridas e bonecas do chapéu.
Enfim, a primeira vista acreditava que aquela mulher negra, coberta por vestes estranhas sofria de algum tipo de síndrome. Mas, rápido, vi que estava enganado e convencido de sua sanidade mental e de sua beatitude, procurei saber mais sobre ela.
Alienígena? Muitos me disseram que ela veio de outro planeta, alguns que ela é uma entidade travestida de mortal vinda da África. Perguntando, ela mesma disse ser de Ilhéus, terra do cacau e de Jorge Amado. Acredito que essa última afirmação está mais próxima da verdade, não por ser dela, mas porque ela pode ser uma das personagens criadas e escapulida das mãos do grande escritor baiano.
Idade? Difícil definir, como entes imortais, seu aspecto físico e seu comportamento tornam impossível qualquer definição, caso ela seja mesmo marciana diríamos que tem menos de 18, caso seja uma terráquea só posso afirmar que é maior de idade.
Família? Um casal de filhos, um menino e uma menina, mas não é casada. O menino, que ela ainda cuida, têm 27 anos e sérios problemas que o tornam completamente dependente, a menina que vive em outro estado têm 24 e pouco contato com a mãe.
Mas, quem é essa mulher negra, corajosa e sobretudo muito feliz, tanto que me pareceu louca, afinal quem é Sara?
Casualmente, foi entre porções de manjuba frita e doses de cachaça ilhoa no Mangues Seco, boteco dirigido por um cover do Raul Seixas, que um sujeito, cuja identidade não tenho, pois diluiu-se com as doses da ilhoa, revelou-me em tom conspiratório: “A resposta que procuras somente o Velho Pescador poderá dar”. Intrigado, logo quis saber como falar com esse tal Pescador. Mas, de forma, mais enigmática ainda, o sujeito sussurrou: “O Velho Pescador só aparece com lua cheia em noite de corrida de tainha na Praia do Itaquitanduva, ele é atraído pelo brilho das bichinhas correndo onda”
Meio descrente, mas conformado e disposto a desvendar o mistério de Sara, gastei três noites de lua cheia esperando o tal Velho Pescador na praia de Itaquitanduva. Em nenhuma dessas noites apareceram tainhas e muito menos pescador.
Quando procurei me informar sobre as tainhas com um sujeito que pescava no costão da Ponte Pênsil, fiquei sabendo que os cardumes desse peixe costumam entrar na barra durante o inverno, por isso tive que esperar duas estações pra voltar ao lugar e tentar encontrar o tal Velho Pescador.
Finalmente, quando o inverno chegou, novamente me abanquei na Praia das Vacas, nome mais popular do lugar, e me dispus a ficar todas as noites até que aparecessem as tainhas e com elas quem eu realmente buscava, o Velho Pescador.
Durante seis noites aguardei em vão, no meio da sétima, quando desanimado estava disposto a desistir, fui chamado a atenção para um lampejo vindo do meio das ondas, quase em seguida outro e mais outro e então me dei conta de que a luminescência era proveniente do reflexo do brilho forte da lua cheia sobre o dorso de grandes peixes que nadavam cruzando a rebentação, um grande cardume. Hipnotizado por aquela imagem vigorosa, não percebi o sujeito se aproximando, somente sai daquele transe quando ele falou:
“Coisa bonita, não paisano?”
Quando me voltei, o sujeito, um senhor negro de estatura média cabelos prateados nas têmporas, sorria pra mim mostrando uma fieira de dentes brancos perfeitos. Fiquei estático, não respondi nada e ele prosseguiu:
“Mas, diga lá paisano, por que vosmecê tá me procurando?”
Meio abobalhado e tentando me recompor, falei:
“O senhor é o Velho Pescador?
Paciente e abrindo novamente seu sorriso de dentes perfeitos, o homem respondeu:
“Velho sou sim paisano, mas pescador, não sou mais não. Por ter pescado tanto dessas bichinhas, agora pago minha conta e só venho na praia pra ver elas passando nas ondas, é muita boniteza, e isso não canso de olhar. Pescador deixei de ser.”
Realmente a imagem daqueles peixes cruzando as ondas refletindo o brilho da lua cheia era bonita, tanto que por alguns instantes ficamos mudos acompanhando o balé das tainhas e foi o sujeito que voltou a perguntar:
“Mas, por que vosmecê me procura?”
Quando expliquei o motivo de eu estar ali, o Velho pescador me contou uma história longa que satisfez minha ansiosa procura.
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Há muito tempo, quando o grande Império Iorubá de Oió foi conquistado pelos Haussás, muitos iorubanos foram vendidos como escravos a traficantes europeus. E estes lotavam seus negreiros com famílias inteiras que, agrilhoadas nos porões, enfrentavam a travessia do Grande Mar Tenebroso em direção ao Novo Mundo.
Entre os escravos amontoados nos porões do negreiro, havia muitas mães com seus filhos pequenos e outras cujos filhos tinham sido arrancados dos braços e, também, muitas crianças perdidas, separadas de suas famílias ainda no porto. Entre estas mães e estes pequenos o desespero era maior, seus gritos ecoavam pelo porão apinhado de pessoas acorrentadas, algumas desfalecidas outras já mortas.
Segundo o Velho pescador, foi num desses navios amaldiçoados que, junto com sua pequena filha e ferida com um profundo corte, uma jovem mãe foi embarcada consciente de que muito rapidamente, junto com o sangue que saia da ferida, também sua vida se esvairia.
Mas ao invés do choro de desespero, a mãe ferida embalava e acalmava sua filha sorrindo e cantando uma doce cantiga fazendo com que a pequena adormecesse agarrada a seus braços.
Sabendo do fim próximo, antes de um último suspiro, a mulher teve forças para rasgar parte de suas maltratadas vestes e com o pedaço de trapo e, em lágrimas, fez uma pequena abayomi, desenhando com o próprio sangue os olhos e uma boca sorridente na cabecinha de pano. Um último presente pra que sua filha, mergulhada em sonhos, quando acordasse não se sentisse sozinha.
As lágrimas de dor e o sangue ainda quente depuseram a aura e a alma da jovem mãe sobre a abayomi e por um instante um raio de luz iluminou as entranhas daquela nau amaldiçoada.
E assim, impregnada de vontade de viver e de iluminar as trevas que recaiu sobre seu povo, a abayomi foi levada para o Novo Mundo onde, por gerações foi se desfiando ao passar de mão em mão até que alguém a abandonou numa praia.
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Enraivecidos por tanta miséria e maldade, as forças poderosas da natureza, os raios e trovões decidiram lançar suas faíscas e reverberações sobre a terra e arrancar a abayomi de um mundo tão maldito.
Porém o soberano Sol decidiu que antes de fazer qualquer coisa, eles deveriam também consultar a Lua e as Estrelas, estas não concordaram.
Por fim resolveram transferir para a pequena boneca a decisão.
Então, perguntaram a pequena abayomi:
“O que preferes? Continuar jogada nesse mundo de cruéis viventes ou ser retirada desse lugar amaldiçoado e passar a eternidade junto a nós, acariciada pelo brilho candente da lua e das estrelas?
“Prefiro ficar aqui, na terra dos homens.”. Respondeu a pequena boneca.
“Mas, por quê? Já cumpriste tua missão, passada de mão em mão trouxeste alegria a quem tocaste, portanto estás livre”.
“É pouco, quero fazer ainda mais”
“Pois diga! O que podemos fazer por ti?”
“Quero ser humano nessa terra desumana, gente nessa terra de gentes!”. A Abayomi respondeu com firmeza.
“Então será feita tua vontade. E qual nome te chamaremos d`agora por diante?”
“Quero o nome daquela que, no Livro desses homens, tornou-se mãe, velha como eu.”
“Então, Sara será o teu nome!”
Inconformado com a decisão corajosa da abayomi já agora em seu corpo de gente, o Raio perguntou:
“Mas, o que farás entre os mortais?”
Com sua boca de falar e seu corpo de gente a abayomi respondeu sem titubear:
“Farei o que sempre fiz na minha existência de boneca, levarei alegria aos viventes”.
Uma última pergunta fez o Sol:
“Mas, como faras isso?”
Sorrindo já com seu eterno sorriso de gente, ela respondeu:
“Simples, fazendo bonecas, serei a Sara das Bonecas!”
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Num dia cinzento conheci Sara.
Com seu jeito meio louco, suas vestes estranhas, suas bonequinhas e seu sorriso radiante ela iluminou este e muitos outros dos meus dias.
Por isso foi tão importante conhecer sua história, agora sei que aquela mulher com vestes estranhas, sorriso largo que vez em quando me honrou com seu carinho é a minha amiga Sara, a Sara das Bonecas.
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