Posta Restante*


 Então! Começo assim, pois assim você iniciava as frases quando pretendia me explica algo que, estúpido, eu não compreendia. Então, há quatro milênios não vejo você! 

Outro dia, alguém me disse que estavas bem, fiquei mal, pois nunca imaginei que um dia tu ficarias bem sem mim. Como percebes, continuo o mesmo, arrogante, egocêntrico, um bobo. Adorava quando me repreendias assim, bobo!. 

Algumas vezes tentei jogar no Mar Pequeno aquele CD onde você gravou suas baladas favoritas, não tive coragem. Apesar de não gostar da maioria delas, as vezes boto pra tocar e dou uma pisada raivosa no acelerador Nunca imaginei que um dia me emocionaria ouvindo Sidnei Magal e Nelson Cavaquinho.

Talvez não te interesse, mas continuo pedante e egoísta, preocupado apenas com minhas pequenas rotinas. Caminho pelos mesmos lugares, os mesmos cafés e sempre paro à frente das mesmas vitrines cor-de-rosa, tua cor favorita, olho e sigo adiante, não entro na loja, pois não tenho  mais a ti para um presentinho cheio de segundas intenções.

Nas livrarias, percorro as mesmas estantes onde estão os títulos da Clarice, da Inês Pedrosa, do Mia Couto teus autores favoritos (li o Paixão Segundo G.H, mas confesso que não entendi nada, insensível além de estúpido, ou melhor, bobo!). Obcecado, fico imaginando se há pouco você não teria passado por ali e folheado alguns livros, me agarro às orelhas d’alguns e atento como um perdigueiro tento farejar teu rastro. Depois disso, rabo entre as pernas, saio com uma bruta saudades do teu perfume de chiclete de melancia, sigo meu caminho, vou a tua procura e nunca te encontro.

Encontro? Sinto pavor de nalgum dia virar uma esquina e me deparar contigo, na certa engasgaria e não diria nada sincero, falaria alguma bobagem do tipo “como tem andado? E o trabalho? Eu? Eu, estou muito bem, claro...”. E, com certeza, tu ficarias com raiva, vendo na minha conversa forçada uma atitude esnobe, do tipo que odeias. Melhor não! Melhor continuar caminhando por essas mesmas calçadas sem topar contigo.

Noite passada, já bem tarde, insone, decidi caminhar pelos jardins da praia, Feito um lobisomem encantado pela lua me acomodei num banco voltado pro mar. Noite mágica essa, busquei a ti no horizonte prateado, nele descobri um Portugal, não te alcancei. Envolvido por aquela magia, de mar, céu e lua, passei a ensaiar coisas pra dizer, caso nos encontremos numa dessas esquinas. Essa minha fala imaginária começaria assim, “Não me interessa com quem tu andou, quem tu beijou, quem tu amou, quero apenas que me digas se, nesse tempo longe, num ato falho, meu nome por engano veio aos teus lábios, se num chocolate de vitrine você sentiu falta de mim, afinal gostaria de saber se numa hora ruim você gritou por mim”.

Melhor não! Melhor nunca topar novamente contigo, pois na certa eu gaguejaria e apenas falaria do tempo ou qualquer outra bobagem arrogante daquele tipo que tu odeias.

Por isso resolvi escrever essas coisas que tu nunca lerás. Faz quatro milênios que não ti vejo e não imaginas a falta que tu me faz.



*Para aquela que um dia me disse que nunca existiu

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