Depoimento
Foi assim seu doutor:
Meu mês acabou no dia treze, passei os olhos na caderneta e tremi, tinha um bocado de número na coluna da direita que ainda não tinha sido riscado.
Puta que o pariu!
Eu pensei, não falei por que sou um cara educado, daqueles de beijar a mão e pedir a benção pros mais velhos. Continuei matutando:
Caralho, a grana acabou e eu to cheio de papagaio, devo pra porra do mundo inteiro, como é que pode?
Resolvi refazer as contas, botei tudinho no papel novamente, até usei um toco de lápis novo pra não escangalhar os dedos e errar nas contas de mais e de menos.
Anotei tudo: uns pacotes de Minister, tem que ser esse por que seu Zé Pelintra só fuma dessa marca; garrafas de Morrão, cachaça da boa destilada no Morro dos Ilhéus, outra exigência do protetor das encruzas; farinha de milho e feijão fradinho, pros ebós; umas galinhas preta, pra dona Maria Padilha me ajudar a amarrar o coração daquela branca; uns pacotes de charuto, pro seu Preto Velho, meu protetor; umas velas de sete dia, pra iluminar os caminhos; uns sacos de bala, pros erês e, lógico, muita flor amarela pra minha doce Oxum, a mais linda das Entidades.
Parei por ai, nas prioridades. Somei tudo, tim-tim por tim-tim, puxei vírgula cantei os noves-fora, mas não deu, a merreca que eu tiro vendendo siri e caranguejo fez sobrar dia nesse mês de trinta e um, só cheguei no dia treze. Resolvi sair na captura.
Seu Maneco, o português da padaria, não deu pra eu chegar perto, to na pendura com ele faz dois meses. Até parei com os rabo-de-galo, achei que era muito luxo, atualmente só to bebendo samba-em-Berlim, feito com tubaína e morrão do Nova Cintra, no copo-sujo do Zóião. O Zóião, eu nem tentei, percebi pelo gosto aguado da marafa que ele também tava descapitalizado. Fui no Manolo da quitanda, quase tomei uma mandiocada na cacunda, o galego ficou todo enfezado só por causa de que, enquanto eu explicava minha situação e pedia um cacau emprestado aproveitei pra experimentar umas jabuticabas que tavam na banca ao lado das caixas de tomates, pô eu só tinha comido umas vinte e o Galego ficou todo esquentado, falando uns nomes feios. Que cara bobão!
Não teve jeito, fui obrigado a recorrer ao finado Cirilo, anotador de jogo do Bicho que faz ponto na farmácia do seu Érico. Além do negócio do jogo do bicho ele também tinha treta de agiotagem, foi ai que a coisa pegou.
Seu doutor, quando eu passei meu relatório pro figura, mostrei minhas necessidades e ainda pus minha magrela na fiança. O zé prexeca do Cirilo se negou e ainda quis tirar uma da minha cara, me deu um sistema nervoso, eu não agüentei e passei a navalha no gogó do indistinto.
Meu mês acabou no dia treze, passei os olhos na caderneta e tremi, tinha um bocado de número na coluna da direita que ainda não tinha sido riscado.
Puta que o pariu!
Eu pensei, não falei por que sou um cara educado, daqueles de beijar a mão e pedir a benção pros mais velhos. Continuei matutando:
Caralho, a grana acabou e eu to cheio de papagaio, devo pra porra do mundo inteiro, como é que pode?
Resolvi refazer as contas, botei tudinho no papel novamente, até usei um toco de lápis novo pra não escangalhar os dedos e errar nas contas de mais e de menos.
Anotei tudo: uns pacotes de Minister, tem que ser esse por que seu Zé Pelintra só fuma dessa marca; garrafas de Morrão, cachaça da boa destilada no Morro dos Ilhéus, outra exigência do protetor das encruzas; farinha de milho e feijão fradinho, pros ebós; umas galinhas preta, pra dona Maria Padilha me ajudar a amarrar o coração daquela branca; uns pacotes de charuto, pro seu Preto Velho, meu protetor; umas velas de sete dia, pra iluminar os caminhos; uns sacos de bala, pros erês e, lógico, muita flor amarela pra minha doce Oxum, a mais linda das Entidades.
Parei por ai, nas prioridades. Somei tudo, tim-tim por tim-tim, puxei vírgula cantei os noves-fora, mas não deu, a merreca que eu tiro vendendo siri e caranguejo fez sobrar dia nesse mês de trinta e um, só cheguei no dia treze. Resolvi sair na captura.
Seu Maneco, o português da padaria, não deu pra eu chegar perto, to na pendura com ele faz dois meses. Até parei com os rabo-de-galo, achei que era muito luxo, atualmente só to bebendo samba-em-Berlim, feito com tubaína e morrão do Nova Cintra, no copo-sujo do Zóião. O Zóião, eu nem tentei, percebi pelo gosto aguado da marafa que ele também tava descapitalizado. Fui no Manolo da quitanda, quase tomei uma mandiocada na cacunda, o galego ficou todo enfezado só por causa de que, enquanto eu explicava minha situação e pedia um cacau emprestado aproveitei pra experimentar umas jabuticabas que tavam na banca ao lado das caixas de tomates, pô eu só tinha comido umas vinte e o Galego ficou todo esquentado, falando uns nomes feios. Que cara bobão!
Não teve jeito, fui obrigado a recorrer ao finado Cirilo, anotador de jogo do Bicho que faz ponto na farmácia do seu Érico. Além do negócio do jogo do bicho ele também tinha treta de agiotagem, foi ai que a coisa pegou.
Seu doutor, quando eu passei meu relatório pro figura, mostrei minhas necessidades e ainda pus minha magrela na fiança. O zé prexeca do Cirilo se negou e ainda quis tirar uma da minha cara, me deu um sistema nervoso, eu não agüentei e passei a navalha no gogó do indistinto.
Pô seu doutor, O CARA ME CHAMOU DE SUBPRIME!

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