O Último Verão
Início dos anos setenta, eu morava no 74 da Pedro Américo, nessa época a rua ainda era espaço para brincar. Assim, todos os finais de tarde, a molecada se juntava na frente do meu prédio e quando o Miluca do 21 aparecia, ele trazia a bola de capão e rolava o gol caixote. Depois de muita discussão, dividíamos seis ou sete pra cada lado, chinelo havaianas fazendo a vez de trave e até começar “Selva de Pedra” a gente arrebentava os dedões e ralava o couro dos pés correndo atrás de uma bola toda escangalhada.
Mas, quando o Diogo e o Ian apareciam era diferente, eles traziam uma pequena bola de camurça, sempre nova em folha, a gente riscava dois círculos no asfalto, distante doze passadas largas um do outro, acomodava uma lata de óleo Salada no centro de cada círculo e rolava o jogo de taco. Geralmente um torneio disputado por seis pares e, geralmente também, Diogo e Ian eram os vencedores.
Lembro ainda que, todas as vezes que o Miluca surgia com a bola de capão, eu ficava aliviado, pois apesar dos pés ralados a turma se divertia de forma mais relaxada. Porém, quando se apresentavam o Diogo e o Ian, eu e a molecada toda ficávamos super excitados, pois quando eles apareciam pro jogo de taco, nossa brincadeira recebia uma plateia muito especial, as meninas do 76 e, principalmente, a Sandrinha das Pernas Lindas, minha paixão.
Ah, como eu me excitava com a Sandrinha e principalmente com suas pernas, lindas e inesquecíveis. Sempre que ela aparecia, eu pensava, “meu Deus, o que haveria ali entre aquele par de pernas lisas, sedosas e perfeitamente torneadas?”
Sandra morava no apê 12 do prédio vizinho e costumava usar uma minissaia curtíssima que enlouquecia os moleques. Todos nós sonhávamos com a Sandra e invariavelmente acordávamos molhados.
O problema é que além de Sandra nos esnobar por nos considerar muito infantis, ela tinha um irmão, o Maneco Cara de Cavalo que era bravo pra burro. Portanto, Sandra e suas maravilhosas pernas, não passavam disso, sonhos molhados!
Acontece que, nossa musa e suas colegas de prédio, a Alicinha Casca de Ferida, a Maria Cabeluda e a Regininha Fala Grosso, todas elas, eram loucas pela dupla Diogo e Ian. Bastava ouvir o rasp-rasp dos cacos de telhas riscando os círculos das bases do jogo de taco, pra elas virem correndo se acomodar na mureta do jardim do meu prédio e ficarem ali, suspirando pela dupla, até a hora da novela .
Acredito que já deu pra perceber que nos divertíamos mais com as disputas de gol caixote com a bola de capão do Miluca. Porém, aguardávamos com ansiedade os torneios de taco com a dupla Diogo e Ian, apesar da humilhação da derrota, ficávamos excitados com a presença das meninas, principalmente com a visão maravilhosa da Sandra e suas pernas estonteantes. Sempre saíamos derrotados, mas certos de que naquela noite seríamos alcançados por sonhos deliciosos.
Importante dizer que nos resignávamos a essa situação por respeitarmos a dupla de marmanjos, ocorre que o Diogo e o Ian já tinham 16 anos e nossa turma era formada por fedelhos de 14, o Miluca era o mais velho, o único que já estava na casa dos quinze. Parece que não, mas esses dois anos de diferença nessa fase da vida, equivalem a dois séculos, estou falando da questão do físico, e do comportamento, perto deles nos sentíamos bebezinhos babacas.
Mas o tempo passou e o último torneio de taco da Pedro Américo aconteceu numa tarde, com plateia, pernas maravilhosas e derrota fragorosa. Contudo e por tudo, aquele foi um dia inesquecível, estávamos em pleno verão, o calor mais a correria esgotavam nossos corpos, e ainda os chiados estridentes das cigarras, loucas pelo acasalamento, mexiam com nossos sentidos. Acabado o jogo, a rua se esvaziou e, por algum motivo, eu fiquei admirando o esplendor daquele fim de tarde até que, noite feita, resolvi entrar. Porém, mal eu dera alguns passos no corredor de entrada do prédio, minha atenção foi chamada para um gemido vindo do outro lado do muro, curioso resolvi ver do que se tratava e ralando os joelhos e os pés descalços, galguei até o topo do muro e me deparei com a cena insólita.
Como um animal hidrófobo, Diogo sugava os pequenos seios da minha Sandrinha e com uma das mãos enfiada entre aquelas tão desejadas coxas, explorava meu paraíso imaginado. Completamente entregue ao animal esfogueado, de olhos fechados, nua da cintura pra cima, Sandrinha com suas pernas lindas escorava-se no tanque de cimento da área de serviço. Oferecida, minha paixão gemia baixinho.
Acompanhei a cena por alguns instantes, durante esse tempo, não senti a pele do joelho se esfolar contra o reboco rugoso e cortante do muro, nem me incomodei com o sangue que escorria de meus dedos crispados sobre os cacos de telhas que cobriam seu topo. Apenas deixei-me cair, entrei e fui direto pro meu quarto. Nessa noite não assisti “Selva de Pedra”.
Nunca mais jogamos taco, porque nunca mais também, o Diogo e o Ian se apresentaram com a bolinha de camurça. Acredito que se eles viessem, eu não jogaria mais aquelas partidas que, apesar de tudo, eram também bem divertidas. Mas, eu estava magoado. Pouco tempo depois, a bola de capão se escangalhou de vez, o Miluca ingressou nos patrulheiros, também não jogamos mais o gol caixote. Acredito que aquele foi o último verão na Pedro Américo.
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